atenção, tudo é perigoso

maio 27, 2011 at 7:19 am Deixe um comentário

tudo é divino, maravilhoso?

não sei.

ou melhor, não é.

de repente, de um 21 prum 22, sua vida passa a ser de um jeito que você não conhece. não, não é o fim de um namoro. nem é uma separação. nem você foi morar sozinho. você é surpreendido pela morte. ela, inexorável. sorrateira. inesperada. silenciosa. repentina. traiçoeira. a morte te diz: “resolva”, “administre”, “supere”, “tenha foco”, “fique firme”, “vá pra terapia”, “procure ajuda”. “só mesmo o tempo”, “a dor vira uma saudade boa”.

de repente, de um 21 prum 22 você não reconhece mais o que conhecia. do 22 de abril de 2011 em diante é tudo um grande, imenso, infinito buraco negro. você dorme e acorda outro. em outras circunstâncias, você decide ser outro. decide mudar, enxergar de outra forma. sente necessidade de ser diferente. com a morte você não escolhe. você é obrigado. e é obrigado a, no dia seguinte, resolver que vai voltar, que vai assumir a titularidade da conta corrente, que vai saber as senhas, abrir as correspondências, achar os documentos. você é forçado a ler o atestado de óbito de seu pai — septissemia, parada cárdio-respiratória, pneumonia, tetraplegia (diz que ele morreu por isso, mas viveu por 64 anos com isso) — como se ele fosse uma carta que chegou na sua casa. é forçado a enxergar papéis, objetos, detalhes, sutilezas que sua mãe não enxerga — ela está cega.

sente a estranheza. e, de repente, depois de um mês (completou um mês no dia em que você nasceu, há 26 anos), você sucumbe. sente pela primeira vez em 30 dias sente um torpor. 3091-1216 é o número que te vem à mente. não atende. ué, mas por que? sempre atende! preciso de ajuda. pai, é uma oferta de trabalho nova. é um novo desafio. me atende. pai, tô com medo, me ajuda. PAI! PAI! pai, cadê você? cadê seu cabelo grisalho, raspado? onde estão seus poros sujinhos do nariz? cadê sua mão, tão parecida com a minha? onde está sua cadeira quicker, quando vou entrar no seu banheiro pra pegar alguma coisa? eu sempre trombo nela! por que o porta-malas da fielder está vazio, pai? PAIÊ! conversa comigo, cheguei do rio! preciso de dinheiro. só um pouquinho. “quanto?”. “quanto der”. “vem me ver”. “quando estiver me sentindo melhor”.

{pausa para o sonho} não consigo me mexer. fui deitar, estranha, com a sensação de que não estava no meu corpo. abri os olhos na madrugada e não podia me mexer. virar. coçar os olhos. um delírio, penso. pouco antes, senti nos pulmões que estava ficando louca. senti no corpo a perda da razão, dos sentidos. onde foi parar minha vida mesmo? aquela, que eu conhecia. daquele jeito, naquela ordem? tento recuperá-la. PAAAAAAAAI! CONVERSA COMIGO! está de pé? como? nadando sem boia? como? delírios, delírios. muitos, como fosse louca mesmo. como se tivesse perdido de vez o juízo. “procure um médico”. “tome remédios”.

siga vivendo.

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no bar. o suficiente…

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